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Formação gratuita expande possibilidades para teatro negro baiano independente

  • 4 de mar.
  • 4 min de leitura

Fotos: Amanda Chung
Fotos: Amanda Chung

A nova fase do projeto aprofunda o olhar para áreas estruturantes do fazer artístico, fortalecendo não apenas a criação em cena, mas também a sustentabilidade e a circulação de teatros negros independentes na Bahia.


Com encontros semanais desde novembro de 2025, o projeto já concretizou um primeiro ciclo dedicado às linguagens criativas, dividido entre oficinas de Escrita Teatral, Atuação, Direção Teatral e Direção Musical. Já no segundo ciclo, que acontece até o final abril, os participantes poderão ampliar ainda mais o aprendizado ao incorporar dimensões estratégicas dos bastidores, como Comunicação Estratégica (Prof: Fábio Lucas), Formação de Público (Prof: Potira), Cenografia (Prof: Clara Matos) e Gestão Teatral (Prof: Nell Araújo). A proposta é garantir acesso a uma formação completa, da criação à gestão, fortalecendo a autonomia e a permanência desses artistas no cenário.


Para a coordenadora do Coletivo Subverso das Artes, Laura Sacramento, além da formação técnica, a residência se estabelece enquanto um espaço de conhecimento colaborativo, com o objetivo de que os participantes possam ter independência em seus trabalhos artísticos e, assim, alcancem mais oportunidades na área. Ela destaca ainda que a proposta da interdisciplinaridade das oficinas amplia o olhar dos artistas negros, que ainda estão sujeitos ao silenciamento e invisibilidade. 


“A coletividade é muito importante para a sobrevivência não só da arte, como do próprio artista. Precisamos uns dos outros para cultivar nossas artes. O teatro é prova viva de que não se faz arte sozinho, ainda que estejamos produzindo um monólogo, precisamos de uma série de agentes da arte que se complementam, como o produtor, o diretor teatral, o diretor musical, assistentes de direção, os técnicos de som, palco, iluminação etc. A coletividade e nossa expressão artística enquanto corpos negros conscientes de nossas subjetividades são os elementos que nos fortalece politicamente”, declara.


JORNADA DE AUTOCONHECIMENTO, TROCA E ENTREGA – Criada em Nova Brasília, Estrada Velha do Aeroporto, e atual moradora do Nordeste de Amaralina, a residente Jaqueline Santana, de 40 anos, revela que, inicialmente, sua intenção era participar apenas do segundo momento do curso, que dialoga diretamente com sua área de atuação em gestão e produção cultural, mas decidiu encarar o desafio da residência completa e explorar novas perspectivas. “Descobrir em mim um corpo e uma mente criativa no teatro é algo totalmente fora da curva do que eu sempre imaginei para mim, e ao mesmo tempo muito transformador”, conta.


“Está sendo um período de muito aprendizado, troca e entrega. A residência tem ampliado minha visão artística e profissional. Além de fortalecer minha atuação na gestão e produção cultural, agora também me vejo com possibilidades na criação cênica, na escrita e na direção. Isso abre portas para novos projetos, parcerias e caminhos de expressão, além de fortalecer minha autoestima e confiança pessoal”, comenta Jaqueline. 


FORMADORES ATENTOS – Para o professor Fábio Lucas Bezerra dos Santos, a Comunicação Estratégica é uma comunicação que muitas vezes é subvalorizada e olhada em segundo plano, mas que tem uma importância substancial dentro do processo criativo e de produção. Ele explica que seu plano de ensino será estruturado em dois pilares práticos: Vendas e Captação e Visibilidade Digital. O conjunto vai permitir que os estudantes aprendam a estruturar um plano de ação e aplicar o que for sendo estudado e abordado durante a oficina, de forma prática e acessível, trazendo para o contexto e para a realidade dos alunos. 


Segundo Fábio, o projeto “Ordem Questionada”, como o próprio nome já diz, foi criado para fazer a diferença dentro de um sistema que limita e restringe. “Projetos como este são de extrema importância, pois fomentam, impulsionam e direcionam o potencial de jovens que acabam infelizmente não sendo vistos com a atenção que deveriam. No Brasil, tem muita gente talentosa que muitas vezes só precisa de espaço e oportunidade para poder se mostrar e se desenvolver com as ferramentas necessárias para decolar”, avalia.


Nas oficinas de Formação de Público, a professora Ana Paula Potira busca trazer o conceito de público como coautor da experiência artística, a partir das relações entre cultura, território e identidade. “Não é possível pensar formação de público sem considerar como as desigualdades estruturais impactam o acesso e a participação cultural. O objetivo é contribuir para a formação de artistas também como agentes culturais críticos e conscientes”, pontua.


Enquanto exemplo de artista impactada pelo Grupo de Teatro Popular Filhos da Rua, um projeto dedicado à valorização da cultura popular e do acesso à arte, Potira afirma que iniciativas como o Ordem Questionada reforçam que artistas negros periféricos têm direito não apenas à expressão, mas à permanência e ao reconhecimento profissional.


“A residência amplia horizontes ao inserir os jovens nas engrenagens que movimentam o setor cultural, como financiamento, mediação, comunicação e desenvolvimento de projetos. Para juventudes negras periféricas de Salvador, esse conhecimento pode representar a possibilidade concreta de não precisar escolher entre sobreviver e criar”, completa.


AUTONOMIA NA CRIAÇÃO – A próxima etapa do projeto, “Circula e Questiona”, é voltada à criação, laboratório e circulação das peças teatrais resultantes das oficinas. Os espetáculos construídos pelo Coletivo Subverso das Artes, com participação dos residentes e dos ouvintes interessados, serão apresentados nos bairros participantes, garantindo a materialização do processo formativo e o compartilhamento das produções nas comunidades de Santo Inácio, Nova Brasília, Engenho Velho da Federação, Candeal e Engenho Velho de Brotas, em junho de 2026.


Ao longo de seis meses, a residência “Qualificando a Desordem”, primeira etapa formativa do projeto “Ordem Questionada”, pretende consolidar um espaço de troca e construção coletiva, fortalecendo redes entre artistas, educadores e comunidades. Para além de formar novos criadores, o projeto reforça a arte como ferramenta de transformação social e afirmação de identidades negras em Salvador. O projeto tem duração total de oito meses, incluindo residência, produção e circulação.


O projeto “Ordem Questionada” foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc Bahia e tem apoio financeiro do Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado via PNAB, direcionada pelo Ministério da Cultura - Governo Federal.



AGENDA RESIDÊNCIA - MARÇO


7 DE MARÇO (SÁBADO)

Oficina: Formação de Público

Professor: Potira

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador - Sala Makota Valdina, Auditório 01



8 DE MARÇO (DOMINGO)

Oficina: Cenografia

Professor: Clara Matos

Horário: 09 às 11h

Local: Arquivo Público de Salvador - Sala Makota Valdina, Auditório 01

 
 
 

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