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Cientista baiana lança autobiografia sobre câncer de mama e saúde íntima

há 5 dias
4 min de leitura
Foto: Divulgação
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Com prefácio de Regina Casé, livro Inteira foi apresentado em Salvador durante o Outubro Rosa; toda a renda obtida com as vendas será destinada a novas pesquisas sobre saúde pélvica feminina.


A experiência de enfrentar o câncer de mama e os desafios físicos e emocionais que permanecem após o tratamento deram origem a Inteira: Uma história real de corpo, intimidade, ciência, espiritualidade e reconstrução, autobiografia da cientista baiana Patrícia Lordêlo, lançada neste domingo (18), no Gabinete Português de Leitura de Salvador. Com prefácio assinado pela multiartista Regina Casé, que esteve próxima da autora durante seu tratamento, a obra conecta a trajetória pessoal de Patrícia à sua atuação como fisioterapeuta pélvica, professora e pesquisadora na área de Saúde da Mulher. Toda a renda obtida com a venda do livro será integralmente destinada a novas pesquisas na área.


Realizado durante o Outubro Rosa, período dedicado à conscientização sobre o câncer de mama, o lançamento reuniu convidados para um bate-papo sobre a obra, que aborda corpo, intimidade, espiritualidade, ciência e os caminhos de reconstrução após a doença. Disponível nas versões impressa e digital, o livro também chama atenção para questões que ainda recebem pouca visibilidade no cuidado às mulheres durante e depois do tratamento oncológico, como ressecamento vaginal, dor nas relações sexuais, redução da libido, sintomas urinários e outras disfunções relacionadas ao assoalho pélvico.


“Na autobiografia, compartilho a experiência de enfrentar o câncer de mama e os caminhos de reconstrução física e emocional após a doença, em uma narrativa que também busca chamar atenção para questões ainda pouco discutidas, como as disfunções pélvicas que podem surgir durante e depois do tratamento”, conta Patrícia Lordêlo.


Da experiência com o câncer à pesquisa científica


A vivência pessoal com a doença aprofundou o olhar da pesquisadora para os impactos do câncer de mama na saúde íntima e na qualidade de vida das pacientes. Durante a quimioterapia e a hormonioterapia, alterações hormonais podem provocar mudanças na mucosa vaginal, ressecamento, desconforto e sintomas semelhantes aos da menopausa. Em alguns casos, o uso prolongado de bloqueadores hormonais pode levar à atrofia vaginal e até à estenose, caracterizada pelo estreitamento do canal vaginal, dificultando a realização de exames ginecológicos e afetando a vida sexual.


Apesar da frequência desses problemas, a saúde pélvica ainda é pouco discutida no acompanhamento de mulheres que passaram pelo câncer de mama. Uma revisão científica publicada em 2026, que reuniu 36 estudos e 9.749 sobreviventes da doença, estimou em 70% a prevalência de disfunção sexual nesse grupo. Embora o levantamento não represente a totalidade das disfunções pélvicas, o resultado evidencia a dimensão de uma questão que pode comprometer a intimidade, a autoestima e o bem-estar das pacientes.


É nesse cenário que Patrícia desenvolve pesquisas voltadas a alternativas não hormonais para o tratamento dessas condições. Desde 2019, ela e sua equipe estudam o uso do LED azul intravaginal, dispositivo idealizado e desenvolvido pelo grupo para auxiliar no tratamento de disfunções relacionadas à saúde íntima feminina.


Estudos realizados com mulheres que passaram pelo tratamento do câncer de mama apontaram melhora da lubrificação e do conforto vaginal com o uso da tecnologia. A próxima etapa da pesquisa deverá investigar sua aplicação durante o próprio tratamento oncológico, inclusive com a possibilidade de uso domiciliar.


O trabalho já recebeu reconhecimento internacional. Em 2022, o grupo de pesquisa liderado por Patrícia foi premiado em Viena, durante o ICS Annual Meeting, congresso da Sociedade Internacional de Continência, pelo estudo sobre o uso de LED no tratamento da Síndrome Geniturinária da Menopausa em sobreviventes do câncer de mama. A pesquisa foi reconhecida na categoria de melhor tratamento conservador.


Para a pesquisadora, a fisioterapia pélvica pode integrar o cuidado multidisciplinar das pacientes, contribuindo para a reabilitação e para a recuperação da qualidade de vida após o câncer. A proposta é ampliar o conhecimento sobre sintomas que, embora possam persistir depois da remissão da doença, nem sempre são abordados durante o acompanhamento médico.


Um livro para ampliar o cuidado e financiar novas pesquisas


Mais do que registrar uma história de enfrentamento e reconstrução, Inteira nasce com o propósito de transformar uma experiência individual em conhecimento e apoio para outras mulheres. Ao compartilhar os desafios vividos durante e depois do câncer de mama, Patrícia pretende contribuir para ampliar o debate sobre saúde íntima e incentivar a inclusão dessas questões no cuidado integral às pacientes.


“Quando vivi o câncer de mama, passei a compreender também, na própria pele, questões que já faziam parte da minha trajetória profissional. Percebi o quanto a saúde pélvica e a sexualidade ainda são pouco discutidas durante e depois do tratamento. Transformar essa experiência em pesquisa e conhecimento é uma forma de ressignificar o que vivi e contribuir para que outras mulheres tenham acesso a um cuidado mais completo”, ressalta.


A destinação integral da renda obtida com a venda da autobiografia a novas pesquisas reforça essa proposta. A iniciativa busca fortalecer estudos que investigam alternativas terapêuticas para problemas que afetam a saúde íntima e a qualidade de vida de mulheres que enfrentaram o câncer de mama.


A escolha do Gabinete Português de Leitura para o lançamento também dialoga com a trajetória da autora, que mantém uma ligação com Portugal, onde divide seu tempo entre consultas, estudos e docência. Entre ciência e experiência pessoal, Patrícia Lordêlo faz de Inteira um convite à reflexão sobre as diferentes dimensões da recuperação após o câncer de mama e sobre a importância de um cuidado que considere não apenas a doença, mas também a intimidade, o bem-estar e a qualidade de vida das mulheres.

 
 
 

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